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quinta-feira, 2 de junho de 2016

COMUNIDADE DE INVESTIGAÇÃO

         
 
 
No Programa de Filosofia para Crianças, criado pelo filósofo Mattew Lipman, estabeleceu-se uma prática de investigação em comunidade como metodologia educacional baseado na teoria de Vigotsk. Por esse motivo, esta técnica pode ser apreendida por todos os profissionais da área de Educação.

Na Comunidade de Investigação desenvolvem-se as habilidades e competências dos participantes do processo dialógico.

O diálogo é o principal instrumento provocado por situações criadas em sala de aula para instigar os alunos à investigação filosófica.

Desta maneira, o diálogo vai além da sala de aula, os alunos passam a questionar e discutir os assuntos com as pessoas de seu convívio, porque aprendem a observar o mundo em que se vive para formular conceitos próprios por autonomia. As crianças interagem com os pais, com os demais membros da escola, com colegas, amigos, vizinhos, parentes e qualquer pessoa que ela busque para interagir. Com isso, as habilidades do pensamento, de leitura, oralidade, escrita e escuta ficam aguçadas.

É todo esse movimento que denomina-se Comunidade de Investigação, pois os alunos em sala de aula participam em comunidade e esta se estende aos âmbitos de suas vivencias independente do lugar que é a escola.

Na Comunidade de Investigação as crianças são instigadas, metodologicamente provocadas a pensar, a desenvolver o pensamento crítico-criativo-cuidadoso.

Por conseguinte, a Comunidade de Investigação envolve qualquer pessoa que esteja em relação com o movimento intrigado de busca por novas descobertas.

Uma das principais características da pessoa que investiga em comunidade é o uso da auto-correção: nesta metodologia de ensino-aprendizado o conteúdo não é despejado nem dado pronto ao educando, ele precisa buscar e elaborar conceitos por si mesmo; então, torna-se comum cometer erros e os reconhecer percebendo que a falibilidade também compõe a humanização.

Neste sentido, há uma ruptura epistemológica com teorias da educação tradicional, o objetivo é edificar o mega paradigma pela busca da autonomia da pessoa.

Lecionar em comunidade de investigação é muito trabalhoso porque o professor deve ter domínio do pressuposto pedagógico para promover a ampliação cognitiva do conteúdo objetivo e lúdico ao mesmo tempo.

E ainda, ter muita humildade para lidar com várias circunstâncias, como ter sua aula confundida com brincadeira de conversa após todo trabalho com jogo progressivo de palavras pensadas.
Assim sendo, alguns mal entendidos aparecerão no momento da avaliação, as correções avaliativas também fazem parte do desenvolvimento da aula e do processo ensino-aprendizagem.

Ou seja, avaliar não significa colocar os alunos à prova, trata-se de oportunizar a compreensão de outra maneira - (trabalharemos a perspectiva da avaliação em nosso próximo texto, bem como das habilidades e competências).

Portanto, a Comunidade de Investigação forma uma rede de ideias compartilhadas por meio de diálogo aplicado lógico didaticamente em qualquer âmbito e esfera educacional. 

FONTE:  http://www.filosofia.com.br/vi_criancas.php?id=6

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

PEQUENOS FILÓSOFOS - O BARQUEIRO E O SÁBIO

Matéria sobre o Janos, filosofia para adolescentes realizada pela TVE Ju...

Ética e identidade

Para Salles, a obra de Ricoeur é marcada pela tentativa de compreender o que é o ser humano e de como encontrar ou dar sentido para a existência humana

Por Fábio Antonio Gabriel


Walter Salles, pesquisador da Filosofia de Paul Ricoeur (1913-2005), conversa com a revista FILOSOFIA Ciência&Vida sobre a pluralidade do pensamento do filósofo francês e a atualização de seus conhecimentos na contemporaneidade. Walter Salles nos conta que seus livros são fonte de encontro entre distintos pensadores e têm o intuito de fazer com que pessoas diferentes dialoguem em torno de temas relacionados com dilemas contemporâneos, mesmo que para isso o filósofo tenha que recorrer a autores do passado. Segundo o pesquisador, cada livro de Ricoeur aborda um tema, uma problemática, sem jamais esgotar completamente o assunto; além disso, no final de cada livro há sempre uma nova questão a ser investigada. Salles apresenta que a "pequena Ética" de Ricoeur encontra-se na obra O si- -mesmo como um outro, publicada em 1990. Neste livro, o pensador francês desenvolve inicialmente uma antropologia filosófica, ou seja, os seis primeiros estudos em torno da identidade, que culminam com a chamada "pequena Ética", "mais precisamente os estudos 7, 8 e 9, que tratam respectivamente da Ética, da moral e da sabedoria prática". Nesta entrevista, temos a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a Filosofia de Paul Ricoeur e sua importância nos dias de hoje.
Fábio Antonio Gabriel, professor de Filosofia do Colégio Estadual Rio Branco de Santo Antonio da Platina, bolsista CAPES/PIBID Filosofia, organizador de Filosofia e Educação: um diálogo necessário (Editora Multifoco), fabioantoniogabriel@gmail.com, https://www.facebook.com/fabio.a.gabriel.5
O pensamento de Ricoeur é marcado, constantemente, por uma tensão, por um confl ito de interpretações que não é visto como algo negativo, mas sim como parte constituinte do diálogo
Imagem: Arquivo Pessoal
FILOSOFIA - O que o fez despertar seu interesse em estudar o pensamento de Paul Ricoeur?
Salles - Este interesse vem de longa data, mais precisamente da época do meu bacharelado em Filosofia, na década de 1980, por ocasião de um curso sobre Hermenêutica filosófica. Este curso me introduziu na obra ricoeuriana pelo viés da Hermenêutica textual. O interesse pelo pensamento do filósofo ganhou um impulso extraordinário na fase parisiense de meus estudos, de modo especial no decorrer de uma palestra proferida pelo próprio Paul Ricoeur, em 1995. A sua sabedoria, sua pujança intelectual e, ao mesmo tempo, sua simplicidade no contato com as pessoas foram decisivas no meu interesse pelo mundo da Filosofia. As perspectivas bem precisas de Ricoeur sempre foram para mim um incentivo: a curiosidade, a honestidade intelectual, a abertura ao diálogo e, finalmente, o respeito por aquele que age e pensa diferente de mim.
FILOSOFIA - Tendo em vista o legado de Paul Ricoeur, quais seriam suas possíveis contribuições para o pensamento filosófico contemporâneo?
Salles - De maneira bem sintética, eu diria que Paul Ricoeur foi um filósofo que adorava dialogar e fazer a Filosofia dialogar com a não Filosofia: com a História, a Literatura, o Direito, a Ciência Política, a Psicanálise, os textos bíblicos, etc. Uma de suas grandes convicções é de que a Filosofia não parte do nada, nem de si mesma, o que para ele está artisticamente retratado em um quadro de Rembrandt (1606-1669): Aristóteles contemplando o busto de Homero. Curiosamente, Aristóteles, na verdade, não contempla o busto de Homero, mas olha para outra direção, não se sabe para o quê. Em todo caso, o interesse de Ricoeur por este quadro consiste no surgimento de um interlocutor não filosófico, o poeta, no trabalho da Filosofia. E nessa atitude de diálogo é fundamental trabalhar a própria identidade, pois estamos sempre inseridos em uma tradição, em uma língua, em uma cultura que precisa ser interpretada, a fim de que se torne inteligível e possa ser dita aos outros. O pensamento de Ricoeur é marcado, constantemente, por uma tensão, por um conflito de interpretações que não é visto como algo negativo, mas sim como parte constituinte do diálogo. Não somos obrigados a estar necessariamente de acordo sobre tudo, mas sim dispostos a compreender as razões do outro sem obrigatoriamente ter que lhe dar razão. Além disso, é importante lembrar que podemos nos enganar, que posso errar em minhas críticas e convicções. Esta é uma característica importante do pensamento ricoeuriano, válida, ainda hoje, para o meio intelectual. Eu diria que Ricoeur deixa como legado uma sabedoria moderna, ou seja, a tensão entre uma fidelidade viva a uma tradição, algo que já está aí, nos é dado, não sou eu que crio e devo corajosamente interpretar, e o ideal moderno do pensamento crítico (Descartes e Kant). Ricoeur não se fecha em uma obediência cega ao passado, ele nos impulsiona a interpretá-lo para torná-lo presente, a fim de que o passado ajude a interpretar os problemas existenciais contemporâneos. Este é, a meu ver, um dos grandes legados do seu pensamento para o mundo contemporâneo: ajudar a pensar quem somos, o que fazemos e o que queremos ser.
Imagem: WikimeDia
Aristóteles contemplando o busto de Homero (1653), do artista holandês Rembrandt, está no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque
FILOSOFIA - Em linhas gerais, seria possível nos apresentar as teses centrais do pensamento de Ricoeur?
Salles - É uma tarefa difícil. Uma dificuldade que advém, em parte, da pluralidade de áreas do saber atravessadas pela sua reflexão filosófica. Uma vez, em uma entrevista, o próprio Ricoeur explicou que esta diversidade em seu pensamento é devido à sua condição de professor e às suas obrigações ligadas ao ensino da Filosofia na universidade. Dessa forma, que seus livros são uma fonte de encontro entre distintos pensadores e têm o intuito de fazer dialogar pessoas diferentes em torno de temas relacionados com dilemas contemporâneos, mesmo que para isso tenha que recorrer a autores do passado. Cada livro de Ricoeur aborda um tema, uma problemática, sem jamais esgotar completamente o assunto; no final de cada livro há sempre uma nova questão a ser investigada. A ideia central é o fato de que ninguém é totalmente transparente a si mesmo, o que confere uma importância crucial ao trabalho de interpretação de si mesmo. Neste trabalho, qualquer que seja a resposta à pergunta O que é o ser humano?, ela deverá necessariamente ser pensada tendo em conta a relação de diálogo com os outros na busca de soluções para as grandes questões que desafiam a humanidade.
FILOSOFIA - Quem foram os pensadores que influenciaram o pensamento desse filósofo e quais os filósofos que são herdeiros de algum traço do pensamento de Ricoeur?
Salles - A aventura filosófica de Ricoeur é marcada inicialmente pelas aulas de seu professor de Filosofia, Roland Dalbiez, no liceu de Rennes. Deste encontro nasce no jovem Ricoeur uma paixão que não o abandonará jamais: a Filosofia; e um conselho imperioso de Dalbiez o marcará para sempre: "Jamais se desvie daquilo que você teme encontrar; jamais se desvie dos obstáculos, enfrente-os de frente". Outra influência marcante será o contato com Gabriel Marcel (1889- -1973) em círculos de debate organizados por este filósofo, com quem Ricoeur aprendeu desde cedo a exigência do compromisso existencial. Outro fato marcante ocorre no campo de prisioneiros durante a Segunda Guerra Mundial. Neste campo, junto com outros companheiros de prisão, Ricoeur aprofunda- -se no estudo em torno da filosofia de Karl Jaspers (1883-1969). Deste filósofo, Ricoeur guardará, dentre outras lembranças, a experiência da "escola" existencialista. Neste período de cativeiro, Ricoeur também enfrenta a igualmente árdua experiência de traduzir o livro Ideen I, de Edmund Husserl (1859-1938), a fim de não ficar louco naquela experiência do inumano no humano e, também, para ter uma postura de resistência, uma vez que Husserl havia sido colocado no index pelos nazistas. Assim, se de Gabriel Marcel Ricoeur havia apreendido a exigência de compromisso existencial, da "escola" fenomenológica de Husserl ele aprendeu a atitude de ir ao encontro de uma experiência despojado de construções herdeiras de tudo aquilo que acreditava saber. Um momento igualmente marcante na vida intelectual de Ricoeur será o contato com Emmanuel Mounier (1905-1950), que lhe despertará uma postura participativa na vida da cidade em contraposição a uma Filosofia encarcerada nos ambientes dos especialistas universitários. Outro pensador e amigo que teve grande influência sobre Ricoeur foi Mircea Eliade (1907-1986), durante e após o seu período nos Estados Unidos, de 1970 a 1981. Dentre aqueles que influenciaram Ricoeur, há de se destacar, também, Jean Nabert (1881-1960), a partir de dois de seus ensaios: um sobre a liberdade e outro sobre o mal. É importante lembrar que todos eles o influenciaram sem jamais fazê-lo sucumbir aos constrangimentos intelectuais de um discípulo; eles sempre o deixaram livre, dizia Ricoeur. Há de se destacar, também, Aristóteles (384-322 a.C.), entre os gregos antigos, e a figura de Agostinho de Hipona (354-430), sobre a reflexão em torno do mal e do tempo. No que diz respeito aos herdeiros de Paul Ricoeur, sinto-me, de certa maneira, constrangido, tendo em vista a amplitude da apropriação de suas obras. Por isso, no lugar de citar nomes, gostaria apenas de me referir a espaços de pesquisa que ajudam a divulgar a obra ricoeuriana e a pensar a partir de Ricoeur. Este é o caso do Fonds Ricoeur (www.fondsricoeur. fr), situado em Paris, que reúne a biblioteca particular de Paul Ricoeur e vem se transformando em um espaço privilegiado de pesquisa e divulgação de seu pensamento. Com o objetivo de coordenar esses trabalhos, em 2010 foi criada a L'Association Paul Ricoeur, também com sede em Paris. Para dar continuidade ao trabalho filosófico de Paul Ricioeur temos, em língua inglesa, a The Society for Ricoeur Studies (www.ricoeursociety.org), com sede nos Estados Unidos, e em línguas portuguesa e espanhola, a ASIER - Associação Ibero-americana de Estudos Ricoeurianos (www.asiernet.org), com sede no Brasil. Hoje existem, também, outras iniciativas em diversas partes do mundo, como é o caso da Ásia.
Ricoeur afirma que o conjunto dos estudos que compõem sua obra visa o agir humano, tendo em vista a construção de um mundo mais justo, o que o motivou a esclarecer o agir humano e a buscar um sentido para a vida
FILOSOFIA - Em 2011 foi realizado o Congresso Latino-americano sobre a obra de Paul Ricoeur, na PUC-Rio. Quais foram as principais temáticas discutidas nesse evento sobre esse importante filósofo?
Salles - Este congresso promoveu debates e reflexões sobre algumas perspectivas hermenêutico-filosóficas da obra ricoeuriana, notadamente aquelas presentes nas obras Tempo e narrativa, O si-mesmo como um outro e Percurso do reconhecimento. Três temáticas fundamentais que marcaram profundamente o trabalho filosófico de Ricoeur estiveram na base das discussões: a Ética, a identidade e o reconhecimento. Tratam-se de temas que, ainda hoje, continuam a desafiar o mundo contemporâneo e para os quais a obra ricoeuriana continua a oferecer vias de investigação e abertura ao diálogo. Gostaria de destacar duas dimensões que marcaram os trabalhos neste congresso. Primeiramente, a vastidão dos diálogos e conexões intelectuais estabelecidos de maneira sólida e profícua na extensa obra ricoeuriana, que leva o leitor a dialogar com diversas áreas do saber. Em segundo lugar, a profundidade das reflexões filosóficas de Ricoeur, que foi capaz, ao mesmo tempo e de maneira perspicaz, de se aproximar e de se distanciar de pensadores importantes da História da Filosofia, sempre de forma respeitosa e movido por uma constante atitude dialogal. As principais palestras deste congresso foram traduzidas e organizadas por mim e pelo professor Fernando Nascimento em forma de livro, publicado em 2013, sob o título Paul Ricoeur: Ética, identidade e reconhecimento.
Imagem: shutterstock
Foi durante seu curso de mestrado em Teologia pela Facultés Jésuites de Paris que Walter Salles passou a ter grande interesse pela obra de Paul Ricoeur
FILOSOFIA - O que é a chamada "pequena Ética" de Paul Ricoeur e em que medida ela poderia nos ajudar a pensar o cotidiano?
Salles -
A "pequena Ética" de Ricoeur encontra-se em sua obra O si-mesmo como um outro, publicada em 1990. Neste livro, ele desenvolve inicialmente uma antropologia filosófica, ou seja, os seis primeiros estudos em torno da identidade. Estes estudos irão culminar na chamada "pequena Ética", mais precisamente os estudos 7, 8 e 9, que tratam respectivamente da Ética, da moral e da sabedoria prática. O último capítulo é dedicado ao estudo da Ontologia. Os estudos antropológicos em torno da identidade se articulam a partir da ideia do homem capaz (homo capax), da capacidade humana de falar, de agir e de narrar a sua história. Este é o solo no qual se ergue a questão ética, ou ainda, o visar uma vida boa (realizada) mantendo-se fiel a si mesmo, à palavra dada, ao longo do tempo. O próprio Ricoeur, no início de sua obra, afirma que o conjunto dos estudos que a compõem visa o agir humano, o seu horizonte é sempre o da práxis, tendo em vista a construção de um mundo mais justo, o que o motivou a esclarecer o agir humano e a buscar um sentido para a vida. Em sua "pequena Ética", destaca-se o papel estruturante da lei, mas, igualmente, enfatiza-se que o desejo pelo bem e por uma sociedade justa a precede e a ultrapassa. Trata-se de dar à lei seu devido lugar sem lhe conceder a última palavra. Em outros termos, do ponto de vista ético, uma pessoa não é justa apenas porque cumpre a lei, mas, sobretudo, porque deseja ser justa com e para os outros em instituições justas. O desejo pela justiça é anterior à lei e à própria prática da justiça. Assim, na "pequena Ética" temos: o primado da Ética sobre a moral, a necessidade de a perspectiva ética passar pelo crivo da moral e a importância de a lei se referir constantemente à perspectiva ética, sobretudo quando a lei conduz o agir a impasses que exigem o papel fundamental da sabedoria prática ou do julgamento prudencial. Daí advém a importância do interlúdio no estudo 9, intitulado O trágico da ação, no qual Ricoeur consagra uma análise à obra Antígona, de Sófocles, com o intuito de mostrar que o homem capaz de agir não deve ater-se apenas ao nível da obrigação moral. A "pequena Ética" está situada no horizonte da justiça e esta, por sua vez, no interior de uma tensão entre o legal e o bom, entre o ideal das Luzes (notadamente Kant), ou seja, das leis claras e objetivas, e a concepção teleológica da vida boa (herança aristotélica).
A História nos ensina que, do ponto de vista antropológico, o ser humano precisa de algo que oriente a sua vida, que lhe dê sentido e orientação, um rumo a seguir
FILOSOFIA - Vivemos num período em que se fala de pluralidade de pensamento, defesa da diversidade de escolha, etc. Mesmo assim, seria possível ainda pensar numa Ética capaz de orientar o agir humano?
Salles -
Para mim é fundamental acreditar nesta possibilidade, por mais árdua que possa parecer essa tarefa. Essa convicção está estreitamente relacionada àquilo que Ricoeur chamava de capacidade humana de buscar o bem e a justiça, apesar de toda a tragédia pessoal e coletiva que possa tentar desacreditar essa capacidade. A História nos ensina que, do ponto de vista antropológico, o ser humano precisa de algo que oriente a sua vida, que lhe dê sentido e orientação, um rumo a seguir. A experiência geográfica, neste sentido, é exemplar. Como sabemos, a palavra "orientação" vem de "oriente", e conforme aprendemos da Geografia, o Oriente é o lugar onde o sol se levanta e é a partir do Sol que nos orientamos no tempo (o dia e a noite) e no espaço (norte, sul, leste e oeste). É evidente que essa maneira de se situar no espaço e no tempo é menos evidente na sociedade contemporânea, que dispõe de outros mecanismos de orientação. Contudo, permanece o fenômeno da orientação como experiência antropológica e Ética, como busca por valores que nos orientem na vida, haja vista as diversas palavras utilizadas para expressar a perda de sentido da vida, palavras que estão enraizadas na experiência geográfica de orientação: des-orientado, des-norteado, sem rumo e sem direção, des-bussolado, etc. De maneira esquemática, desde a perspectiva ética, na cultura ocidental temos a chamada Ética cósmica (Grécia antiga), na qual cada um tinha seu lugar bem determinado, bastando adequar- se à ordem do cosmos, considerada como algo divino; em seguida, surge uma Ética religiosa, marcada, notadamente, pela ascensão do Cristianismo, que defende a igualdade de todos perante Deus; depois, veio a Ética da razão, a Era das Luzes, na qual não se buscava mais uma referência a Deus, mas sim a capacidade humana de ser justo pelo simples uso da razão; em um quarto momento, temos a era da desconstrução, caracterizada pelo pensamento dos chamados "mestres da suspeita": Nietzsche, Marx e Freud. Hoje, no mundo contemporâneo, a busca por um "Oriente" que possa dar sentido à existência humana continua, e, provavelmente, ela passa pelo diálogo, pelo respeito, pela atitude de tolerância com aquele que pensa e age diferente de mim, uma busca fundamentada na ideia de que, embora cada um possa ter razão em um momento ou outro, não é possível ter razão sempre e muito menos de forma absoluta.
Imagem: Arquivo Pessoal
FILOSOFIA - No seu modo de entender, quais os principais desafios éticos vivenciados na contemporaneidade?
Salles
- Eu diria que o mundo globalizado nos colocou em uma encruzilhada: como garantir a convivência pacífica e harmoniosa entre os diversos povos e as diversas culturas? No tocante à economia, acredito que há um sistema de crenças que entra em colapso. Este é o caso de afirmações dogmáticas do tipo "crescimento econômico mais crescimento industrial igual a progresso da humanidade", como se fosse uma simples fórmula matemática. Há de se pensar o papel do lucro das empresas diante de todas as pessoas e de suas necessidades básicas. Temos a sociedade de consumo, que reduz a dignidade e as relações humanas ao poder de produção e consumo. Tudo vira mercadoria. Do ponto de vista antropológico, temos novas questões trazidas pelo avanço da Biotecnologia, da Engenharia genética e da Neurociência: o que significa ser humano? Como entender o início e o fim da vida? Quais são os limites no que diz respeito à manipulação da vida? Outro imenso desafio encontra-se no âmbito da Justiça (jurídica), com a falência do nosso sistema judiciário e penal, associado à disseminação da corrupção e da impunidade. A tudo isso é preciso acrescentar a ameaça global do fundamentalismo religioso, que coloca em risco a paz mundial. Estes são alguns desafios éticos contemporâneos que suscitam diversas questões, como por exemplo: tudo aquilo que é possível do ponto de vista tecnológico e econômico deve necessariamente ser admitido a partir da perspectiva ética? Ter dinheiro e acesso à tecnologia me dá o direito e a razão de agir de determinada maneira ou de fazer determinada coisa?
FILOSOFIA - Vivemos numa época em que a instituição familiar tem passado por diversas adequações de paradigmas. A Filosofia pode contribuir no sentido de pensar valores que são fundamentais na convivência familiar?
Salles -
Certamente, o que não significa dizer que essa contribuição seja fácil de conceituar e praticar. Em todo caso, acredito ser de vital importância que no seio da convivência familiar possam ser cultivados alguns valores. Dar condições para que as novas gerações sejam capazes de enfrentar as diversidades da vida, estimando-se como seres capazes de ser bons e justos, e tomando distância de uma cultura do sucesso: nem tudo na vida dá certo, o erro e o fracasso fazem parte da condição humana, limitada e finita. Desenvolver nas crianças e nos jovens o sentido de autoridade e de limites, de que não se pode fazer tudo que se tenha vontade e que é preciso haver respeito pelo outro é fundamental, e isso se aprende desde cedo. É importante, igualmente, mostrar-lhes que na vida há coisas mais fundamentais do que aquilo que é apresentado pela sociedade de consumo. Outro aspecto fundamental diz respeito à noção de justiça e honestidade. Eu fico impressionado ao perceber, por exemplo, que, para alguns jovens universitários, honestidade é sinônimo de ingenuidade ou falta de oportunidade para se dar bem na vida. Eis o porquê da urgência de desenvolver nas novas gerações o sentido de justiça, de honestidade, da transparência e do respeito pelo outro.
A obra Percurso do reconhecimento é a última publicação de Ricoeur, na qual ele retoma o tema da identidade, presente em Tempo e narrativa e particularmente trabalhada em O si-mesmo como um outro
FILOSOFIA - Um dos livros que você organizou denomina-se Paul Ricoeur: Ética, identidade e reconhecimento. Poderia nos falar sobre esse trinômio - Ética, identidade e reconhecimento - dentro do pensamento desse filósofo e em que medida esse pensamento poderia nos auxiliar numa revisão pessoal de comportamento?
Salles -
Este livro é fruto das palestras ministradas no Congresso Latino-americano sobre a obra de Paul Ricoeur, realizado em novembro de 2011. O trinômio Ética, identidade e reconhecimento, no contexto deste evento, fazia referência a três obras específicas do autor - Tempo e narrativa, O si-mesmo como um outro e Percurso do reconhecimento -, embora a temática inerente ao trinômio em questão extrapole os limites dessas obras no conjunto do trabalho filosófico de Ricoeur. Atenho-me, aqui, a dois aspectos do trinômio, haja vista que a Ética já foi mencionada ao se falar sobre a "pequena Ética", apesar de a preocupação ética ser um fio condutor de toda obra ricoeuriana e não apenas de O si-mesmo como um outro. No tocante à identidade, o projeto filosófico de Ricoeur se radica no distanciamento da tentativa de fundamentação do cogito por Descartes (1596-1650) e da sua destituição por Nietzsche (1844-1900). A meio caminho está Ricoeur ao tomar distância do cogito e de sua negação, ao usar o termo "si" para se precaver da possível redução a um "eu" autocentrado e para pensar o si-mesmo como um outro, a possibilidade de o sujeito, sem deixar de ser si mesmo, vir a ser um outro. Ricoeur pretende escapar da dicotomia que não contribui para a solução do problema da identidade: ou o sujeito é um emaranhado de conhecimentos, emoções e vontades que jamais se unificam, a não ser ilusoriamente, ou é pura permanência, alguém sempre idêntico a si mesmo. Ele deseja, igualmente, mostrar que o sujeito só pode ser compreendido como sendo atravessado e constituído por uma série de mediações de obras da cultura. E este sujeito só tem acesso a si mesmo por meio de mediações e de reflexões que considerem tanto sua permanência como sua transformação no decorrer do tempo. O sujeito é originalmente interpretação de si mesmo e isso, na relação com os outros, trata-se de uma identidade que já não é mais fruto de uma mera conceituação (teoria) e que emana de uma condição ética plural. A obra Percurso do reconhecimento é a última publicação de Paul Ricoeur, na qual ele retoma o tema da identidade, presente em Tempo e narrativa e particularmente trabalhado em O si-mesmo como um outro. Em sua última obra sobressai uma nova dimensão do homem capaz: o reconhecimento. Paul Ricoeur nos ajuda a pensar a gratidão, o sentido do ser comum que habita todos nós, a partir de uma atitude de mútuo reconhecimento, reconhecimento de si e do outro como alguém portador de dignidade, de respeito. A identidade pessoal e coletiva deve ser construída ao longo de toda a vida na certeza de que não há um "eu" em estado bruto a ser descoberto. Eu sempre sei que sou, é verdade, mas nem sempre sei quem sou. A identidade está no horizonte existencial como terra prometida sempre a ser conquistada. Tudo isso, a meu ver, tendo em vista o que Paul Ricoeur considerava como sendo "a vida boa com e para o outro em instituições justas".
Fonte:  http://portalcienciaevida.uol.com.br/esfi/Edicoes/102/artigo338069-1.asp

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