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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

PEQUENOS FILÓSOFOS - O BARQUEIRO E O SÁBIO

Matéria sobre o Janos, filosofia para adolescentes realizada pela TVE Ju...

Ética e identidade

Para Salles, a obra de Ricoeur é marcada pela tentativa de compreender o que é o ser humano e de como encontrar ou dar sentido para a existência humana

Por Fábio Antonio Gabriel


Walter Salles, pesquisador da Filosofia de Paul Ricoeur (1913-2005), conversa com a revista FILOSOFIA Ciência&Vida sobre a pluralidade do pensamento do filósofo francês e a atualização de seus conhecimentos na contemporaneidade. Walter Salles nos conta que seus livros são fonte de encontro entre distintos pensadores e têm o intuito de fazer com que pessoas diferentes dialoguem em torno de temas relacionados com dilemas contemporâneos, mesmo que para isso o filósofo tenha que recorrer a autores do passado. Segundo o pesquisador, cada livro de Ricoeur aborda um tema, uma problemática, sem jamais esgotar completamente o assunto; além disso, no final de cada livro há sempre uma nova questão a ser investigada. Salles apresenta que a "pequena Ética" de Ricoeur encontra-se na obra O si- -mesmo como um outro, publicada em 1990. Neste livro, o pensador francês desenvolve inicialmente uma antropologia filosófica, ou seja, os seis primeiros estudos em torno da identidade, que culminam com a chamada "pequena Ética", "mais precisamente os estudos 7, 8 e 9, que tratam respectivamente da Ética, da moral e da sabedoria prática". Nesta entrevista, temos a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a Filosofia de Paul Ricoeur e sua importância nos dias de hoje.
Fábio Antonio Gabriel, professor de Filosofia do Colégio Estadual Rio Branco de Santo Antonio da Platina, bolsista CAPES/PIBID Filosofia, organizador de Filosofia e Educação: um diálogo necessário (Editora Multifoco), fabioantoniogabriel@gmail.com, https://www.facebook.com/fabio.a.gabriel.5
O pensamento de Ricoeur é marcado, constantemente, por uma tensão, por um confl ito de interpretações que não é visto como algo negativo, mas sim como parte constituinte do diálogo
Imagem: Arquivo Pessoal
FILOSOFIA - O que o fez despertar seu interesse em estudar o pensamento de Paul Ricoeur?
Salles - Este interesse vem de longa data, mais precisamente da época do meu bacharelado em Filosofia, na década de 1980, por ocasião de um curso sobre Hermenêutica filosófica. Este curso me introduziu na obra ricoeuriana pelo viés da Hermenêutica textual. O interesse pelo pensamento do filósofo ganhou um impulso extraordinário na fase parisiense de meus estudos, de modo especial no decorrer de uma palestra proferida pelo próprio Paul Ricoeur, em 1995. A sua sabedoria, sua pujança intelectual e, ao mesmo tempo, sua simplicidade no contato com as pessoas foram decisivas no meu interesse pelo mundo da Filosofia. As perspectivas bem precisas de Ricoeur sempre foram para mim um incentivo: a curiosidade, a honestidade intelectual, a abertura ao diálogo e, finalmente, o respeito por aquele que age e pensa diferente de mim.
FILOSOFIA - Tendo em vista o legado de Paul Ricoeur, quais seriam suas possíveis contribuições para o pensamento filosófico contemporâneo?
Salles - De maneira bem sintética, eu diria que Paul Ricoeur foi um filósofo que adorava dialogar e fazer a Filosofia dialogar com a não Filosofia: com a História, a Literatura, o Direito, a Ciência Política, a Psicanálise, os textos bíblicos, etc. Uma de suas grandes convicções é de que a Filosofia não parte do nada, nem de si mesma, o que para ele está artisticamente retratado em um quadro de Rembrandt (1606-1669): Aristóteles contemplando o busto de Homero. Curiosamente, Aristóteles, na verdade, não contempla o busto de Homero, mas olha para outra direção, não se sabe para o quê. Em todo caso, o interesse de Ricoeur por este quadro consiste no surgimento de um interlocutor não filosófico, o poeta, no trabalho da Filosofia. E nessa atitude de diálogo é fundamental trabalhar a própria identidade, pois estamos sempre inseridos em uma tradição, em uma língua, em uma cultura que precisa ser interpretada, a fim de que se torne inteligível e possa ser dita aos outros. O pensamento de Ricoeur é marcado, constantemente, por uma tensão, por um conflito de interpretações que não é visto como algo negativo, mas sim como parte constituinte do diálogo. Não somos obrigados a estar necessariamente de acordo sobre tudo, mas sim dispostos a compreender as razões do outro sem obrigatoriamente ter que lhe dar razão. Além disso, é importante lembrar que podemos nos enganar, que posso errar em minhas críticas e convicções. Esta é uma característica importante do pensamento ricoeuriano, válida, ainda hoje, para o meio intelectual. Eu diria que Ricoeur deixa como legado uma sabedoria moderna, ou seja, a tensão entre uma fidelidade viva a uma tradição, algo que já está aí, nos é dado, não sou eu que crio e devo corajosamente interpretar, e o ideal moderno do pensamento crítico (Descartes e Kant). Ricoeur não se fecha em uma obediência cega ao passado, ele nos impulsiona a interpretá-lo para torná-lo presente, a fim de que o passado ajude a interpretar os problemas existenciais contemporâneos. Este é, a meu ver, um dos grandes legados do seu pensamento para o mundo contemporâneo: ajudar a pensar quem somos, o que fazemos e o que queremos ser.
Imagem: WikimeDia
Aristóteles contemplando o busto de Homero (1653), do artista holandês Rembrandt, está no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque
FILOSOFIA - Em linhas gerais, seria possível nos apresentar as teses centrais do pensamento de Ricoeur?
Salles - É uma tarefa difícil. Uma dificuldade que advém, em parte, da pluralidade de áreas do saber atravessadas pela sua reflexão filosófica. Uma vez, em uma entrevista, o próprio Ricoeur explicou que esta diversidade em seu pensamento é devido à sua condição de professor e às suas obrigações ligadas ao ensino da Filosofia na universidade. Dessa forma, que seus livros são uma fonte de encontro entre distintos pensadores e têm o intuito de fazer dialogar pessoas diferentes em torno de temas relacionados com dilemas contemporâneos, mesmo que para isso tenha que recorrer a autores do passado. Cada livro de Ricoeur aborda um tema, uma problemática, sem jamais esgotar completamente o assunto; no final de cada livro há sempre uma nova questão a ser investigada. A ideia central é o fato de que ninguém é totalmente transparente a si mesmo, o que confere uma importância crucial ao trabalho de interpretação de si mesmo. Neste trabalho, qualquer que seja a resposta à pergunta O que é o ser humano?, ela deverá necessariamente ser pensada tendo em conta a relação de diálogo com os outros na busca de soluções para as grandes questões que desafiam a humanidade.
FILOSOFIA - Quem foram os pensadores que influenciaram o pensamento desse filósofo e quais os filósofos que são herdeiros de algum traço do pensamento de Ricoeur?
Salles - A aventura filosófica de Ricoeur é marcada inicialmente pelas aulas de seu professor de Filosofia, Roland Dalbiez, no liceu de Rennes. Deste encontro nasce no jovem Ricoeur uma paixão que não o abandonará jamais: a Filosofia; e um conselho imperioso de Dalbiez o marcará para sempre: "Jamais se desvie daquilo que você teme encontrar; jamais se desvie dos obstáculos, enfrente-os de frente". Outra influência marcante será o contato com Gabriel Marcel (1889- -1973) em círculos de debate organizados por este filósofo, com quem Ricoeur aprendeu desde cedo a exigência do compromisso existencial. Outro fato marcante ocorre no campo de prisioneiros durante a Segunda Guerra Mundial. Neste campo, junto com outros companheiros de prisão, Ricoeur aprofunda- -se no estudo em torno da filosofia de Karl Jaspers (1883-1969). Deste filósofo, Ricoeur guardará, dentre outras lembranças, a experiência da "escola" existencialista. Neste período de cativeiro, Ricoeur também enfrenta a igualmente árdua experiência de traduzir o livro Ideen I, de Edmund Husserl (1859-1938), a fim de não ficar louco naquela experiência do inumano no humano e, também, para ter uma postura de resistência, uma vez que Husserl havia sido colocado no index pelos nazistas. Assim, se de Gabriel Marcel Ricoeur havia apreendido a exigência de compromisso existencial, da "escola" fenomenológica de Husserl ele aprendeu a atitude de ir ao encontro de uma experiência despojado de construções herdeiras de tudo aquilo que acreditava saber. Um momento igualmente marcante na vida intelectual de Ricoeur será o contato com Emmanuel Mounier (1905-1950), que lhe despertará uma postura participativa na vida da cidade em contraposição a uma Filosofia encarcerada nos ambientes dos especialistas universitários. Outro pensador e amigo que teve grande influência sobre Ricoeur foi Mircea Eliade (1907-1986), durante e após o seu período nos Estados Unidos, de 1970 a 1981. Dentre aqueles que influenciaram Ricoeur, há de se destacar, também, Jean Nabert (1881-1960), a partir de dois de seus ensaios: um sobre a liberdade e outro sobre o mal. É importante lembrar que todos eles o influenciaram sem jamais fazê-lo sucumbir aos constrangimentos intelectuais de um discípulo; eles sempre o deixaram livre, dizia Ricoeur. Há de se destacar, também, Aristóteles (384-322 a.C.), entre os gregos antigos, e a figura de Agostinho de Hipona (354-430), sobre a reflexão em torno do mal e do tempo. No que diz respeito aos herdeiros de Paul Ricoeur, sinto-me, de certa maneira, constrangido, tendo em vista a amplitude da apropriação de suas obras. Por isso, no lugar de citar nomes, gostaria apenas de me referir a espaços de pesquisa que ajudam a divulgar a obra ricoeuriana e a pensar a partir de Ricoeur. Este é o caso do Fonds Ricoeur (www.fondsricoeur. fr), situado em Paris, que reúne a biblioteca particular de Paul Ricoeur e vem se transformando em um espaço privilegiado de pesquisa e divulgação de seu pensamento. Com o objetivo de coordenar esses trabalhos, em 2010 foi criada a L'Association Paul Ricoeur, também com sede em Paris. Para dar continuidade ao trabalho filosófico de Paul Ricioeur temos, em língua inglesa, a The Society for Ricoeur Studies (www.ricoeursociety.org), com sede nos Estados Unidos, e em línguas portuguesa e espanhola, a ASIER - Associação Ibero-americana de Estudos Ricoeurianos (www.asiernet.org), com sede no Brasil. Hoje existem, também, outras iniciativas em diversas partes do mundo, como é o caso da Ásia.
Ricoeur afirma que o conjunto dos estudos que compõem sua obra visa o agir humano, tendo em vista a construção de um mundo mais justo, o que o motivou a esclarecer o agir humano e a buscar um sentido para a vida
FILOSOFIA - Em 2011 foi realizado o Congresso Latino-americano sobre a obra de Paul Ricoeur, na PUC-Rio. Quais foram as principais temáticas discutidas nesse evento sobre esse importante filósofo?
Salles - Este congresso promoveu debates e reflexões sobre algumas perspectivas hermenêutico-filosóficas da obra ricoeuriana, notadamente aquelas presentes nas obras Tempo e narrativa, O si-mesmo como um outro e Percurso do reconhecimento. Três temáticas fundamentais que marcaram profundamente o trabalho filosófico de Ricoeur estiveram na base das discussões: a Ética, a identidade e o reconhecimento. Tratam-se de temas que, ainda hoje, continuam a desafiar o mundo contemporâneo e para os quais a obra ricoeuriana continua a oferecer vias de investigação e abertura ao diálogo. Gostaria de destacar duas dimensões que marcaram os trabalhos neste congresso. Primeiramente, a vastidão dos diálogos e conexões intelectuais estabelecidos de maneira sólida e profícua na extensa obra ricoeuriana, que leva o leitor a dialogar com diversas áreas do saber. Em segundo lugar, a profundidade das reflexões filosóficas de Ricoeur, que foi capaz, ao mesmo tempo e de maneira perspicaz, de se aproximar e de se distanciar de pensadores importantes da História da Filosofia, sempre de forma respeitosa e movido por uma constante atitude dialogal. As principais palestras deste congresso foram traduzidas e organizadas por mim e pelo professor Fernando Nascimento em forma de livro, publicado em 2013, sob o título Paul Ricoeur: Ética, identidade e reconhecimento.
Imagem: shutterstock
Foi durante seu curso de mestrado em Teologia pela Facultés Jésuites de Paris que Walter Salles passou a ter grande interesse pela obra de Paul Ricoeur
FILOSOFIA - O que é a chamada "pequena Ética" de Paul Ricoeur e em que medida ela poderia nos ajudar a pensar o cotidiano?
Salles -
A "pequena Ética" de Ricoeur encontra-se em sua obra O si-mesmo como um outro, publicada em 1990. Neste livro, ele desenvolve inicialmente uma antropologia filosófica, ou seja, os seis primeiros estudos em torno da identidade. Estes estudos irão culminar na chamada "pequena Ética", mais precisamente os estudos 7, 8 e 9, que tratam respectivamente da Ética, da moral e da sabedoria prática. O último capítulo é dedicado ao estudo da Ontologia. Os estudos antropológicos em torno da identidade se articulam a partir da ideia do homem capaz (homo capax), da capacidade humana de falar, de agir e de narrar a sua história. Este é o solo no qual se ergue a questão ética, ou ainda, o visar uma vida boa (realizada) mantendo-se fiel a si mesmo, à palavra dada, ao longo do tempo. O próprio Ricoeur, no início de sua obra, afirma que o conjunto dos estudos que a compõem visa o agir humano, o seu horizonte é sempre o da práxis, tendo em vista a construção de um mundo mais justo, o que o motivou a esclarecer o agir humano e a buscar um sentido para a vida. Em sua "pequena Ética", destaca-se o papel estruturante da lei, mas, igualmente, enfatiza-se que o desejo pelo bem e por uma sociedade justa a precede e a ultrapassa. Trata-se de dar à lei seu devido lugar sem lhe conceder a última palavra. Em outros termos, do ponto de vista ético, uma pessoa não é justa apenas porque cumpre a lei, mas, sobretudo, porque deseja ser justa com e para os outros em instituições justas. O desejo pela justiça é anterior à lei e à própria prática da justiça. Assim, na "pequena Ética" temos: o primado da Ética sobre a moral, a necessidade de a perspectiva ética passar pelo crivo da moral e a importância de a lei se referir constantemente à perspectiva ética, sobretudo quando a lei conduz o agir a impasses que exigem o papel fundamental da sabedoria prática ou do julgamento prudencial. Daí advém a importância do interlúdio no estudo 9, intitulado O trágico da ação, no qual Ricoeur consagra uma análise à obra Antígona, de Sófocles, com o intuito de mostrar que o homem capaz de agir não deve ater-se apenas ao nível da obrigação moral. A "pequena Ética" está situada no horizonte da justiça e esta, por sua vez, no interior de uma tensão entre o legal e o bom, entre o ideal das Luzes (notadamente Kant), ou seja, das leis claras e objetivas, e a concepção teleológica da vida boa (herança aristotélica).
A História nos ensina que, do ponto de vista antropológico, o ser humano precisa de algo que oriente a sua vida, que lhe dê sentido e orientação, um rumo a seguir
FILOSOFIA - Vivemos num período em que se fala de pluralidade de pensamento, defesa da diversidade de escolha, etc. Mesmo assim, seria possível ainda pensar numa Ética capaz de orientar o agir humano?
Salles -
Para mim é fundamental acreditar nesta possibilidade, por mais árdua que possa parecer essa tarefa. Essa convicção está estreitamente relacionada àquilo que Ricoeur chamava de capacidade humana de buscar o bem e a justiça, apesar de toda a tragédia pessoal e coletiva que possa tentar desacreditar essa capacidade. A História nos ensina que, do ponto de vista antropológico, o ser humano precisa de algo que oriente a sua vida, que lhe dê sentido e orientação, um rumo a seguir. A experiência geográfica, neste sentido, é exemplar. Como sabemos, a palavra "orientação" vem de "oriente", e conforme aprendemos da Geografia, o Oriente é o lugar onde o sol se levanta e é a partir do Sol que nos orientamos no tempo (o dia e a noite) e no espaço (norte, sul, leste e oeste). É evidente que essa maneira de se situar no espaço e no tempo é menos evidente na sociedade contemporânea, que dispõe de outros mecanismos de orientação. Contudo, permanece o fenômeno da orientação como experiência antropológica e Ética, como busca por valores que nos orientem na vida, haja vista as diversas palavras utilizadas para expressar a perda de sentido da vida, palavras que estão enraizadas na experiência geográfica de orientação: des-orientado, des-norteado, sem rumo e sem direção, des-bussolado, etc. De maneira esquemática, desde a perspectiva ética, na cultura ocidental temos a chamada Ética cósmica (Grécia antiga), na qual cada um tinha seu lugar bem determinado, bastando adequar- se à ordem do cosmos, considerada como algo divino; em seguida, surge uma Ética religiosa, marcada, notadamente, pela ascensão do Cristianismo, que defende a igualdade de todos perante Deus; depois, veio a Ética da razão, a Era das Luzes, na qual não se buscava mais uma referência a Deus, mas sim a capacidade humana de ser justo pelo simples uso da razão; em um quarto momento, temos a era da desconstrução, caracterizada pelo pensamento dos chamados "mestres da suspeita": Nietzsche, Marx e Freud. Hoje, no mundo contemporâneo, a busca por um "Oriente" que possa dar sentido à existência humana continua, e, provavelmente, ela passa pelo diálogo, pelo respeito, pela atitude de tolerância com aquele que pensa e age diferente de mim, uma busca fundamentada na ideia de que, embora cada um possa ter razão em um momento ou outro, não é possível ter razão sempre e muito menos de forma absoluta.
Imagem: Arquivo Pessoal
FILOSOFIA - No seu modo de entender, quais os principais desafios éticos vivenciados na contemporaneidade?
Salles
- Eu diria que o mundo globalizado nos colocou em uma encruzilhada: como garantir a convivência pacífica e harmoniosa entre os diversos povos e as diversas culturas? No tocante à economia, acredito que há um sistema de crenças que entra em colapso. Este é o caso de afirmações dogmáticas do tipo "crescimento econômico mais crescimento industrial igual a progresso da humanidade", como se fosse uma simples fórmula matemática. Há de se pensar o papel do lucro das empresas diante de todas as pessoas e de suas necessidades básicas. Temos a sociedade de consumo, que reduz a dignidade e as relações humanas ao poder de produção e consumo. Tudo vira mercadoria. Do ponto de vista antropológico, temos novas questões trazidas pelo avanço da Biotecnologia, da Engenharia genética e da Neurociência: o que significa ser humano? Como entender o início e o fim da vida? Quais são os limites no que diz respeito à manipulação da vida? Outro imenso desafio encontra-se no âmbito da Justiça (jurídica), com a falência do nosso sistema judiciário e penal, associado à disseminação da corrupção e da impunidade. A tudo isso é preciso acrescentar a ameaça global do fundamentalismo religioso, que coloca em risco a paz mundial. Estes são alguns desafios éticos contemporâneos que suscitam diversas questões, como por exemplo: tudo aquilo que é possível do ponto de vista tecnológico e econômico deve necessariamente ser admitido a partir da perspectiva ética? Ter dinheiro e acesso à tecnologia me dá o direito e a razão de agir de determinada maneira ou de fazer determinada coisa?
FILOSOFIA - Vivemos numa época em que a instituição familiar tem passado por diversas adequações de paradigmas. A Filosofia pode contribuir no sentido de pensar valores que são fundamentais na convivência familiar?
Salles -
Certamente, o que não significa dizer que essa contribuição seja fácil de conceituar e praticar. Em todo caso, acredito ser de vital importância que no seio da convivência familiar possam ser cultivados alguns valores. Dar condições para que as novas gerações sejam capazes de enfrentar as diversidades da vida, estimando-se como seres capazes de ser bons e justos, e tomando distância de uma cultura do sucesso: nem tudo na vida dá certo, o erro e o fracasso fazem parte da condição humana, limitada e finita. Desenvolver nas crianças e nos jovens o sentido de autoridade e de limites, de que não se pode fazer tudo que se tenha vontade e que é preciso haver respeito pelo outro é fundamental, e isso se aprende desde cedo. É importante, igualmente, mostrar-lhes que na vida há coisas mais fundamentais do que aquilo que é apresentado pela sociedade de consumo. Outro aspecto fundamental diz respeito à noção de justiça e honestidade. Eu fico impressionado ao perceber, por exemplo, que, para alguns jovens universitários, honestidade é sinônimo de ingenuidade ou falta de oportunidade para se dar bem na vida. Eis o porquê da urgência de desenvolver nas novas gerações o sentido de justiça, de honestidade, da transparência e do respeito pelo outro.
A obra Percurso do reconhecimento é a última publicação de Ricoeur, na qual ele retoma o tema da identidade, presente em Tempo e narrativa e particularmente trabalhada em O si-mesmo como um outro
FILOSOFIA - Um dos livros que você organizou denomina-se Paul Ricoeur: Ética, identidade e reconhecimento. Poderia nos falar sobre esse trinômio - Ética, identidade e reconhecimento - dentro do pensamento desse filósofo e em que medida esse pensamento poderia nos auxiliar numa revisão pessoal de comportamento?
Salles -
Este livro é fruto das palestras ministradas no Congresso Latino-americano sobre a obra de Paul Ricoeur, realizado em novembro de 2011. O trinômio Ética, identidade e reconhecimento, no contexto deste evento, fazia referência a três obras específicas do autor - Tempo e narrativa, O si-mesmo como um outro e Percurso do reconhecimento -, embora a temática inerente ao trinômio em questão extrapole os limites dessas obras no conjunto do trabalho filosófico de Ricoeur. Atenho-me, aqui, a dois aspectos do trinômio, haja vista que a Ética já foi mencionada ao se falar sobre a "pequena Ética", apesar de a preocupação ética ser um fio condutor de toda obra ricoeuriana e não apenas de O si-mesmo como um outro. No tocante à identidade, o projeto filosófico de Ricoeur se radica no distanciamento da tentativa de fundamentação do cogito por Descartes (1596-1650) e da sua destituição por Nietzsche (1844-1900). A meio caminho está Ricoeur ao tomar distância do cogito e de sua negação, ao usar o termo "si" para se precaver da possível redução a um "eu" autocentrado e para pensar o si-mesmo como um outro, a possibilidade de o sujeito, sem deixar de ser si mesmo, vir a ser um outro. Ricoeur pretende escapar da dicotomia que não contribui para a solução do problema da identidade: ou o sujeito é um emaranhado de conhecimentos, emoções e vontades que jamais se unificam, a não ser ilusoriamente, ou é pura permanência, alguém sempre idêntico a si mesmo. Ele deseja, igualmente, mostrar que o sujeito só pode ser compreendido como sendo atravessado e constituído por uma série de mediações de obras da cultura. E este sujeito só tem acesso a si mesmo por meio de mediações e de reflexões que considerem tanto sua permanência como sua transformação no decorrer do tempo. O sujeito é originalmente interpretação de si mesmo e isso, na relação com os outros, trata-se de uma identidade que já não é mais fruto de uma mera conceituação (teoria) e que emana de uma condição ética plural. A obra Percurso do reconhecimento é a última publicação de Paul Ricoeur, na qual ele retoma o tema da identidade, presente em Tempo e narrativa e particularmente trabalhado em O si-mesmo como um outro. Em sua última obra sobressai uma nova dimensão do homem capaz: o reconhecimento. Paul Ricoeur nos ajuda a pensar a gratidão, o sentido do ser comum que habita todos nós, a partir de uma atitude de mútuo reconhecimento, reconhecimento de si e do outro como alguém portador de dignidade, de respeito. A identidade pessoal e coletiva deve ser construída ao longo de toda a vida na certeza de que não há um "eu" em estado bruto a ser descoberto. Eu sempre sei que sou, é verdade, mas nem sempre sei quem sou. A identidade está no horizonte existencial como terra prometida sempre a ser conquistada. Tudo isso, a meu ver, tendo em vista o que Paul Ricoeur considerava como sendo "a vida boa com e para o outro em instituições justas".
Fonte:  http://portalcienciaevida.uol.com.br/esfi/Edicoes/102/artigo338069-1.asp

A criança em seu mundo Mário Sérgio Cortella Café Filosófico

5 Frases de Sócrates

Frases Filosóficas

Filosofando com músicas

Música na Filosofia I

Matthew Lipman e o papel da narrativa

A importância da filosofia para crianças

Como tornar a filosofia algo atraente para crianças e adolescentes?

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Matthew Lipman
(Vineland, Nova Jersey, 24 de agosto de 1922 - West Orange, Nova Jersey, 26 de dezembro de 2010 )


Foi um filósofo americano, reconhecido como fundador da filosofia para crianças. Sua decisão de trazer a filosofia para os jovens decorreu de sua experiência como professor na Columbia University, onde Lipman constatou a dificuldade dos seus alunos para raciocinar. Assim, procurou desenvolver-lhes a habilidade de raciocínio particularmente através do ensino da lógica. A crença de que as crianças têm a capacidade de pensar abstratamente desde muito cedo levou-o à convicção de que incluir a lógica na educação infantil ajudaria a melhorar sua habilidade de raciocinar.
Em 1972, Lipman trocou Columbia pelo Montclair State College, onde criou o Institute for the Advancement of Philosophy for Children (IAPC), e começou a introduzir a filosofia nas classes K-12 (educação primária e secundária) de Montclair. Naquele ano, ele também publicou seu primeiro livro Harry Stottlemeier's Discovery, especificamente destinado a ajudar as crianças na prática da filosofia. O IAPC continua a atuar em âmbito internacional para promover a filosofia para crianças.
Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/Matthew_Lipman

O JOVEM SÓCRATES



 
Autor: Nonato Nogueira
Acabamento: Brochura
Formato: 18 x 23,5
Número de páginas: 32
Editora Edjovem
Rua Vicente Leite, 2900 - Parque Adahil Barreto
Cep.: 60.170-151 - Fortaleza/Ce.
CNPJ: 09.698355/0001- 57
Tel.: (85) 3257 4596
http://www.editoraedjovem.com.br/
E-Mail: editoraedjovem@hotmail.com

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

PROJETO ETHOS


FILOSOFIA E CIDADANIA

Autor: Nonato Nogueira e  José Ferreira 
Disciplina: Filosofia
Indicação de série: 6º ano - Fundamental 2
Sobre a obra: De forma simples com pequenos textos iniciais, introduz os estudantes no mundo da filosofia a partir do espanto; incentivando os alunos a alcançarem o mundo do conhecimento mitológico e filosófico. Traz abordagens que visam despertar o filósofo existente em cada pessoa; estimulando-os a questionarem-se como responsáveis pelas próprias ideias, com amplas possibilidades de se comunicarem e contribuir para a efetivação de uma sociedade mais justa em que todos são respeitados





Autor: Nogueira e José Ferreira
Disciplina: Filosofia
Indicação de série: 7º ano - Fundamental 2
Sobre a obra: A partir do espanto (admiração), incentiva os alunos a alcançarem o mundo do conhecimento. Traz abordagens que visam despertar o fi lósofo existente em cada criança; estimulando-a a questionar-se como ser pensante. Investiga-a, na sua essência, como ser que pensa, e comunica-se e constrói sua própria história.




Autor: Nonato Nogueira e José Ferreira
Disciplina: Filosofia
Indicação de série: 8º ano - Fundamental 2
Sobre a obra: Aborda a questão da Moral e da Ética, chamando a atenção para os valores. Põe em juízo o “jeitinho brasileiro” na vida cotidiana. Investiga a condição dos jovens e dos seus valores, o ato moral, o desejo e a vontade, a consciência moral e a virtude. Ao examinar a questão da liberdade humana; destaca o ato livre, o ato responsável, a liberdade e a responsabilidade, os limites da liberdade humana, o livre-arbítrio e o pensar como uma forma de liberdade. O amor é discutido em todas as suas dimensões. Compara o amor do filósofo pelo conhecimento com o amor que o adolescente tem pela vida. A adolescência e a sexualidade humana são retratadas, levando-se em consideração o olhar adolescente e a relação com os familiares.


Autor: Nonato Nogueira e José Ferreira
Disciplina: Filosofia
Indicação de série: 9º ano - Fundamental 2
Sobre a obra: A filosofia é abordada como o desejo pela verdade na sociedade, nas artes e na política. O poder é diferenciado da força, e ambos são apresentados como constitutivos dos diversos Estados elaborados por meio do contrato social e dos acordos entre os homens. As grandes correntes políticas são discutidas, apresentadas e exemplificadas. Os temas da cidadania e dos direitos humanos recebem especial atenção por representarem a garantia da qualidade e promoção da vida. A indústria cultural, o relacionamento com a televisão, o consumismo e a busca por um consumo consciente concluem o volume.

 

EDITORA EDJOVEM
Rua Vicente Leite, 2900
Parque Adahil Barreto - Fortaleza - CE
Tel: (85) 3257.4996 / Fax: 3257-4596
 http://www.editoraedjovem.com.br/index.php

DICA DE LIVRO

Coleção Um Novo Olhar Filosófico


Autor: Nonato Nogueira

Disciplina: Filosofia
Indicação de série: 6º ano - Fundamental 1
Formato: 20,5 x 27,5
Sobre a obra: Através da investigação, este livro coloca o aluno do 6o Ano em contato inicial com o saber filosófico. Apresenta uma definição do que seja filosofia, na sua origem, e define de forma bastante clara o perfil do filósofo. Seu traçado permitirá aos alunos explorar a evolução da filosofia, com vistas a despertar o filósofo existente em cada um deles, levando-os a questionar a si próprio como ser pensante
Autor: Nonato Nogueira
Disciplina: Filosofia
Indicação de série: 7º ano - Fundamental 1
Formato: 20,5 x 27,5
Sobre a obra: Este livro amplia e aprofunda os conteúdos abordados no livro anterior desta coleção, à medida que faz um traçado histórico da evolução da filosofia, levando em consideração os primeiros filósofos, as diversas formas de conhecimento, a aparente discrepância entre ciência e filosofia e as diferentes correntes de pensamentos, concluindo com o conceito do que é a lógica. Portanto, vê-se claramente que o objetivo deste compêndio é despertar o poder intelectual dos alunos, por expandir-lhe a capacidade cognitiva, incentivando-os a investigar, questionar, refletir e discutir sobre os diversos aspectos filosóficos.

Autor: Nonato Nogueira
Disciplina: Filosofia
Indicação de série: 8º ano - Fundamental 1
Formato: 20,5 x 27,5
Sobre a obra: À medida que o saber filosófico passa a fazer parte da vida dos alunos, é inevitável que eles lancem um outro olhar sobre o mundo ao seu redor, predispondo-se a transformar a experiência vivida em experiência compreendida. Pensando nesse processo, este livro ajudará os alunos do 8o Ano a investigar fundamentos importantes, próprios do seu universo a ser desvendado, como a ética (que envolve ato moral, virtudes e vícios, valores sociais, etc.), a liberdade humana, o amor e a paixão, a adolescência e suas facetas e a sexualidade, fase intermediária do desenvolvimento humano. 
Autor: Nonato Nogueira
Disciplina: Filosofia
Indicação de série: 9º ano - Fundamental 1
Formato: 20,5 x 27,5
Sobre a obra: Neste estágio, o último livro da Coleção Um Novo Olhar Filosófico confronta o ato de filosofar com a realidade vivenciada pelo ser humano. Focaliza a atenção do aluno na relação existente entre o mundo do trabalho e a sociedade do consumo. Conduz o aluno na investigação sobre a política e o poder, a força e a atuação do homem enquanto ser (ou ente) político. Estabelece também, no mundo das artes, a relação entre o belo e o feio. Trata, ainda, da diferença conceitual de cidadania dos tempos antigos com a cidadania dos nossos dias.

EDITORA EDJOVEM LTDA
Rua Vicente Leite, 2900 - Parque Adahil Barreto
Cep.: 60.170-151 - Fortaleza/Ce.
CNPJ: 09.698355/0001- 57
Tel.: (85) 3257 4596
http://www.editoraedjovem.com.br/
E-Mail: editoraedjovem@hotmail.com

FILOSOFANDO

Despertar filosófico

por André Assi Barreto
Fonte: http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/42/despertar-filosofico-290838-1.asp




Todo estudante e professor de Filosofia acaba, em algum momento, sendo inquirido com a pergunta “o que é a Filosofia e para que ela serve?”. Para alunos do ensino médio e de outros cursos de graduação, é preciso que os professores empreguem uma parte de seu tempo para definir o que a Filoso fia é e para justi car seu ensino. Antes de adentrar nos escritos de Platão e Aristóteles, muitas vezes é preciso convencer os alunos que eles devem ser estudados.
De mais elementar dos ramos do conhecimento, única ciência disposta a sanar todas nossas questões essenciais (de onde viemos? para onde vamos? e como devemos agir?), a Filoso fia ganhou a caricatura de enfadonha e desinteressante, além de “não servir para nada”. Quanto a esta última acusação, logo alerto meus alunos que a Filoso fia, de fato, não tem nenhuma utilidade “prática”, não no sentido de “prático” empregado pelo senso comum. Embora seja verdade que a Filoso fia pode fazer de quem a estuda um melhor escritor, orador ou argumentador, essas são consequências contingentes, o propósito do estudo da Filoso fia não é e não deve ser um desses.
A Filoso fia não tem utilidade prática, é “inútil” no mesmo sentido que a arte é inútil. Qual a utilidade de contemplar uma tela, ler um poema ou ouvir uma música? No sentido comum e cotidiano de prático, nenhuma. Contudo, com uma análise cuidadosa, percebemos que tais coisas ditas inúteis são tão ou mais importantes que as úteis. Uma excelente ilustração disso é o documentário Por que a beleza importa?, do lósofo inglês Roger Scruton, que mostra a recente busca dos ingleses por prédios construídos com base na arquitetura vitoriana que, diferentemente dos atuais, primavam pela beleza e não apenas para a funcionalidade. O mesmo se aplica a Filoso fia: embora inútil, é uma atividade indispensável e caracteristicamente humana.
A questão passa a ser, então, transmitir isso a um público desinteressado, de mentalidade cienti cista, tecnicista e imediatista, capaz de atribuir valor apenas àquilo imbuído de utilidade material e não espiritual.
Assim, o professor tem de cumprir o papel de persuasor, convencer o aluno da importância do estudo da Filoso fia; e caso pre ra-se partir de uma leitura direta dos clássicos, sem a contextualização devida, acabamos por obter o efeito inverso e a afastar da Filosofia aqueles que estão a ter um primeiro contato com ela. Para o propósito de ensinar a Filosofia, banalizá-la é tão prejudicial quanto apresentá-la para os iniciantes fazendo uma leitura direta da Metafísica de Aristóteles. Disso decorre a importância do professor não fomentar os preconceitos, mas sim dissolvê-los; o desa o torna-se mais difícil.
É válido se reportar a Sócrates e adotar sua estratégia: operar “de cima para baixo”, a discussão dos temas mais abstratos eram sempre iniciados ou muito bem ilustrados com exemplos cotidianos pelo mestre de Platão. Isso é ainda mais urgente no caso do Ensino Médio: partir do mundo circundante para chegar à abstração losó ca, despertando no aluno a relação entre as duas coisas; isso tudo sem perder o rigor e propor re exões tão rasas que não possam ser enquadradas como losó cas.
Despertada a consciência que nossa vida é regida por uma atmosfera cultural determinada por ideias filosóficas, é pouco provável que alunos e público em geral sigam a fazer troça da Filosofia. Cabe aqui o alerta apaixonado feito por Ayn Rand: “como um ser humano, você não tem escolha sobre o fato de que precisa de uma loso a. Sua única escolha é se você de ne sua loso a por um processo consciente, racional e disciplinado de pensamento e deliberação escrupulosamente lógico - ou se você permite que o seu subconsciente acumule uma pilha inútil de conclusões injusti cadas, falsas generalizações, etc (...)”.
Uma vez compreendido que viver num mundo regido por ideias losó cas não é uma escolha e que ninguém deseja se submeter às ideias dos outros, despertar essa consciência torna-se quase um dever moral para nós, professores de Filoso fia.
*André Assi Barreto é graduado em Filosofia pela Universidade São Judas Tadeu (USJT), mestrando em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da rede pública de ensino (Escola Estadual Sapopemba). Blog: www.andreassibarreto.org

DICA DE LIVRO

O jovem Sócrates

 
Autor: Nonato Nogueira
Acabamento: Brochura
Formato: 18 x 23,5
Número de páginas: 32
Sobre a obra: Você já pensou em desvendar os mistérios da vida? Em questionar-se sobre a natureza das coisas, dos sentimentos, das ações e até da própria existência? No conto Sócrates e seus amigos o autor Nonato Nogueira imagina o grande filósofo grego Sócrates como um menino que ainda convive com seus pais Sofronisco e Fenareta, mas que já é questionador, discutindo sobre tudo o que lhe vem à cabeça e criando em seus amigos a curiosidade reflexiva do filósofo. Conhecer essa narrativa que nos leva a caminhar pela antiga Grécia com Sócrates e seus companheiros de juventude, despertará no leitor o desejo de também se tornar um amigo da sabedoria.

FILOSOFANDO

Afirmar você e o seu brilho

A assertividade é o conceito que melhor representa as características de quem está no controle da própria vida e não à mercê dos eventos, manifestando as próprias capacidades e necessidades no contexto pessoal e social

por Eduardo Shinyashiki
 Imagem: Shutterstock
A assertividade é o conceito que melhor representa e expressa todas as características de quem está na direção da própria vida, e não à mercê dos eventos, de quem realiza a si mesmo, manifestando as próprias capacidades e necessidades no contexto pessoal e social.
O termo assertividade deriva do latim asserire, com o significado de afirmar a si mesmo, sustentar a própria opinião. Nesse sentido, ser assertivo significa saber expressar, de forma clara e eficaz, as próprias emoções, ideias e direitos, sem assumir uma atitude agressiva em relação ao interlocutor, respeitando o seu posicionamento.
Num contexto mais amplo, assertividade se relaciona, também, com eficácia pessoal, eficiência, afirmação, habilidade social e competências emocionais.
Muito legal, não é mesmo? Porém, nem sempre é fácil ter uma postura assertiva. Especialmente, no contexto profissional acontece que, às vezes, deixamos que as nossas ideias sejam desqualificadas e não consideradas, o que nos inspira a ter reações contrárias, como ofender ou humilhar as ideias dos outros.
Saber expressar e defender as próprias opiniões e pontos de vista, sem agredir ou ofender, tem como pressuposto principal uma atitude interna de autoestima e a autoconfiança.
Ser assertivo pressupõe, principalmente, conhecer a si mesmo. Essa óbvia constatação é, na realidade, a mais árdua a ser trabalhada, pois significa desenvolver a autoestima, o próprio posicionamento diante do mundo, o autoconhecimento e o fortalecimento das competências emocionais. O respeito aos valores humanos significa reconhecer que o ser humano é um ser social e que a qualidade das suas relações interpessoais é a fonte principal da felicidade.
É necessário desenvolver habilidades práticas ligadas, por exemplo, à maestria na comunicação verbal e não verbal. Além disso, estar sempre disposto a aprender, estar aberto ao novo, ao conhecimento, às mudanças dos contextos e à analise dos cenários, contribui para a assertividade.
Esse é um processo contínuo de amadurecimento, em que não é somente necessário aprender coisas novas, mas, especialmente, aprender a ver as coisas com novos olhares.
Isso se traduz no exercício do equilíbrio entre o amor próprio e a humildade, entre ocupar o próprio espaço e o respeito pelo espaço do outro, onde a ideia de reciprocidade é intrínseca e essencial. Quer dizer ter a consciência de si mesmo, interagindo com as outras pessoas, reconhecer aos outros o mesmo direito de comunicar as próprias convicções e de seguir em busca dos próprios objetivos e, nesse diálogo, poder crescer e evoluir, utilizando o outro como espelho, colocando em confronto ideias, formas de pensar, sentir e ver o mundo.
A passividade é uma condição caracterizada por uma constante submissão ao outro e ao contexto, e do medo de defender os próprios pontos de vista para tutelar os seus objetivos. A pessoa passiva não consegue influenciar outras pessoas, pois são os outros que a influenciam. Elas enfrentam os problemas, preocupações e necessidades alheias, antes de solucionar as próprias. No contexto profissional, a pessoa passiva cria dúvidas e desequilíbrios pela falta de foco e atitude.
No oposto, a pessoa que assume um comportamento agressivo tenta impor as suas opiniões para chegar aos seus interesses, sem respeitar o outro. Sem espírito de equipe, essas pessoas não sabem colaborar e nem controlar a raiva, criando conflitos no contexto profissional e na cooperação e integração com os colaboradores e grupos, tornado as ações sem lógica e sem sentido.
Desse modo, se pensarmos melhor, podemos ver que o núcleo central da assertividade é a ideia de liberdade, compreendida como capacidade de se libertar de condicionamentos negativos e comportamentos limitantes, além de fortalecer a capacidade de se expressar de forma mais evoluída, respeitosa e eficaz, aprendendo a lidar, de maneira adequada, com as emoções e as necessidades pessoais, sem entrar no sentimento de ansiedade, desconforto, medo ou raiva. Isso leva a viver o real conceito de liberdade.
A assertividade é uma qualidade chave das pessoas de sucesso, realizadas e focadas nos resultados, atentas a flexibilizar e suavizar os defeitos que caracterizam a passividade e a agressividade para se tornar mais assertivas e conseguir influenciar os outros e a organização em que trabalham.
O resultado disso tudo é uma maior oportunidade de carreira, pois, no trabalho, o profissional assertivo tem uma atitude disponível e colaborativa com a equipe, assume as próprias responsabilidades, decisões, ações e, também, erros. Viva a autonomia de criar a realidade que deseja viver, com tudo e todos ao seu redor.
Imagem: Shutterstock
Eduardo Shinyashiki é palestrante, consultor organizacional, escritor e especialista em Desenvolvimento das Competências de Liderança e Preparação de Equipes. Presidente da Sociedade Cre Ser Treinamentos, colabora periodicamente com artigos para revistas e jornais. Autor dos livros Viva como Você Quer Viver, A Vida é um Milagre e Transforme seus Sonhos em Vida - Editora Gente. Para mais informações, www.edushin.com.br

Fonte:  http://portalcienciaevida.uol.com.br/esps/Edicoes/103/artigo323788-1.asp

FILOSOFANDO

Fugindo do moedor de carne

Somente a disciplina, característica ligada à virtude da moderação, pode nos livrar de termos nossos sonhos tragados pelo ritmo frenético do cotidiano

 por Lilian Graziano
Imagem: Shutterstock 
Dizem que uma das medidas da realização humana seria um conjunto de três ações distintas: conceber um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Nesse sentido, comecei cedo. Tornei- -me mãe aos 20 anos e, apesar da pressa em relação à maternidade, demorei mais 20 anos para plantar uma árvore. Foi no meu aniversário de 40 anos que decidi me dar de presente uma jabuticabeira, não sem o cuidado de comprá-la já adulta, a fim de fugir da conhecida lenda que, baseada no lento crescimento da árvore, diz que aquele que planta uma jabuticabeira nunca chega a comer seus frutos. Tenho dúvidas em relação a se deveria tê-la plantado a partir da semente para que o ato fosse "oficialmente" julgado como indicativo de realização. Talvez tenha "trapaceado" nesse quesito, mas me sinto confortável em relação a ele.
Meu desconforto, por outro lado, diz respeito ao livro. Tecnicamente, tenho um livro publicado, embora não no mercado brasileiro. Fiquei contente quando recebi um convite de uma editora alemã para que minha tese de doutorado fosse transformada em livro e vertida em Inglês para lançamento no mercado estrangeiro. Mas, talvez, por se tratar da minha tese, eu não a veja como um livro. Assim sendo, fiquei com essa pendência em relação à minha realização.
É quando entra em cena o famoso "moedor de carne". Para quem ainda não conhece a expressão, segue a descrição que levará o leitor, tenho certeza, à construção de uma imagem que lhe fará se dar conta de sua total intimidade com o drama descrito por ela.

LIGAMOS NOSSO METAFÓRICO MOEDOR DE CARNE EM VOLTAGEM 220, TODOS OS DIAS, PELA MANHÃ. EM SEGUIDA, ENTRAMOS DENTRO DELE (ISSO MESMO! DENTRO DELE!) E LÁ PASSAMOS O NOSSO DIA, TRAGADOS POR SEU RITMO FRENÉTICO E IMPLACÁVEL
Ligamos nosso metafórico moedor de carne em voltagem 220, todos os dias, pela manhã. Em seguida, entramos dentro dele (isso mesmo! Dentro dele!) e lá passamos o nosso dia, tragados por seu ritmo frenético e implacável. Depois, à noite, os mais saudáveis conseguem desligá-lo, saindo dele antes de dormir. Os mais "comprometidos" sofrem com insônia e/ou sono agitado, sinal de que seus moedores continuam funcionando e - o pior - de que permanecem dentro deles.
Vejo esse "moedor de carne" como um de nossos piores inimigos. E, infelizmente, saber de sua existência nem sempre garante que eu não seja uma de suas vítimas. Foi por causa do moedor de carne que, até hoje, não concluí meu livro teórico sobre Psicologia Positiva, uma eterna pendência na área de trabalho do meu computador.
No início deste ano, fui surpreendida pela sugestão de uma amiga para que eu "publicasse" um livro de Psicologia Positiva que não fosse teórico, mas, sim, que mostrasse a vida a partir do olhar da Psicologia Positiva. Achei a ideia bastante interessante, mas lembrei a ela que antes de "publicar" o tal livro, eu precisaria escrevê-lo, o que meu moedor de carne, definitivamente, não permitiria. Sobretudo neste ano.
Foi quando ela me disse que eu já havia escrito o livro. Segundo ela, o tinha feito ao longo dos últimos quatro anos em que mantive minha coluna Psicopositiva na revista Psique Ciência&Vida. Minha amiga tinha razão. Sem que eu me desse conta, a disciplina de manter uma coluna mensal havia me levado à realização de produzir um material que poderia ser transformado em livro.
Não pude deixar de notar que para fugir do moedor de carne só nos resta a disciplina. A mesma disciplina tão desafiadora para quem tem o autocontrole como sua 24ª força pessoal...
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Lilian Graziano é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.
graziano@psicologiapositiva.com.br
 Fonte:http://portalcienciaevida.uol.com.br/esps/Edicoes/103/artigo323787-1.asp